Eletrificar uma frota industrial não é apenas trocar o combustível pela tomada. É redesenhar custos, infraestrutura, rotinas de recarga e desempenho operacional. Um estudo desenvolvido na UFRJ com dados reais de uma unidade fabril LUBRAX mostra como essa decisão pode ser analisada com rigor — e por que o preço de compra conta apenas uma parte da história.

01 — ANÁLISE

Da pesquisa acadêmica à decisão industrial

O trabalho analisou uma frota ativa de 39 empilhadeiras — 28 movidas a GLP e 11 a GNV — com idade média de 13,9 anos. Todas as unidades a GNV tinham mais de 16 anos, condição que reforçava a necessidade de planejar a renovação do ativo.

A partir do diagnóstico, foram selecionados os 18 equipamentos mais antigos. Para permitir uma comparação econômica homogênea, o cenário de referência considerou a reposição dessas 18 unidades por empilhadeiras novas a GLP e comparou esse caminho à adoção de equipamentos elétricos com bateria de íons de lítio.

PONTO DE PARTIDA

A decisão não foi construída sobre uma tendência de mercado, mas sobre idade da frota, consumo real, custo de manutenção e exigências da operação.

02 — ANÁLISE

Dados reais e uma metodologia de custo total

O consumo de combustível foi consolidado a partir de 15 meses de registros, entre janeiro de 2022 e março de 2023. A empilhadeira equivalente a GLP apresentou média de 479 kg por mês e projeção de 5.752 kg por ano. Para a frota de 18 unidades, o cenário de referência alcançou 103.536 kg de GLP ao ano.

A avaliação incorporou investimento inicial, energia, combustível, manutenção, infraestrutura de recarga e fluxo de caixa descontado. O Valor Presente Líquido foi calculado para dez anos, com taxa mínima de atratividade de 12,68% ao ano. Esse método evita uma armadilha comum: escolher o equipamento apenas pelo menor preço de aquisição.

LEITURA ESTRATÉGICA

Custo total de propriedade transforma consumo, manutenção e vida útil em critérios de engenharia financeira — não apenas em despesas futuras.

03 — ANÁLISE

Compatibilidade técnica com a operação

A solução elétrica de referência tinha capacidade entre 2,5 e 3 toneladas, compatível com a aplicação estudada. A autonomia estimada de 6 a 8 horas e a recarga em menos de uma hora, combinadas à recarga de oportunidade, indicaram viabilidade para a rotina operacional analisada.

As baterias de lítio consideradas superavam 3.000 ciclos e dispensavam práticas típicas de baterias chumbo-ácido, como troca de bateria e áreas dedicadas à manutenção. A eliminação da combustão no ponto de uso também reduz ruído, calor e emissões locais, fatores relevantes em ambientes industriais.

04 — ANÁLISE

O custo operacional muda o resultado

No cenário do estudo, uma empilhadeira a GLP acumulava R$ 36.455,36 por ano em combustível e R$ 20.687 em manutenção, totalizando R$ 57.142,36 anuais. A alternativa elétrica foi estimada em R$ 16.262,40 de energia e R$ 6.000 de manutenção, total anual de R$ 22.262,40.

A diferença foi de aproximadamente R$ 34.880 por equipamento a cada ano. Em uma frota, a repetição dessa economia operacional é o mecanismo que compensa o investimento inicial mais alto da tecnologia elétrica.

ECONOMIA OPERACIONAL

O custo anual estimado do equipamento elétrico ficou cerca de 61% abaixo do cenário equivalente a GLP.

05 — ANÁLISE

Investimento maior, retorno em 3,4 anos

A empilhadeira nova a GLP foi orçada em R$ 140 mil. Para a alternativa elétrica, foram considerados R$ 180 mil pelo equipamento, R$ 50 mil de infraestrutura elétrica, R$ 5 mil de instalação do carregador e R$ 3 mil de adaptação da área — R$ 238 mil por unidade.

Na comparação de 18 equipamentos, a diferença inicial de investimento chegou a R$ 1,764 milhão. Ainda assim, a redução recorrente dos custos levou a um payback estimado de 3,4 anos.

No horizonte de dez anos, o custo em valor presente foi calculado em R$ 9,31 milhões para o cenário a GLP e R$ 6,93 milhões para o elétrico. A vantagem acumulada da eletrificação atingiu R$ 2.383.414,45.

LEITURA ESTRATÉGICA

O investimento inicial aumentou, mas o valor presente do custo total caiu. É essa inversão que transforma eletrificação em decisão de capital.

06 — ANÁLISE

Mais de 3,1 mil toneladas de CO₂e em perspectiva

A combustão dos 103.536 kg anuais de GLP do cenário de referência foi associada a 312,22 toneladas de CO₂ equivalente por ano. Em dez anos, a substituição integral projetada representa até 3.122,25 toneladas de CO₂e direto potencialmente evitadas no ponto de operação.

Esse número não deve ser interpretado como emissão líquida zero. A eletricidade possui emissões associadas à geração, e um inventário corporativo completo precisa avaliar Escopo 2 e, quando aplicável, o ciclo de vida dos equipamentos. Ainda assim, o contexto brasileiro é favorável: segundo a EPE, fontes renováveis responderam por 88,2% da matriz elétrica do país em 2024.

LEITURA RESPONSÁVEL

O valor apresentado corresponde às emissões diretas de combustão potencialmente evitadas. A pegada líquida depende da origem da eletricidade e das fronteiras do inventário.

07 — ANÁLISE

O potencial não contabilizado de solar e armazenamento

A simulação elétrica utilizou a tarifa cheia da concessionária, de R$ 1,21 por kWh, e não atribuiu benefício econômico à geração fotovoltaica já disponível na unidade. Essa escolha tornou o cenário mais conservador.

Integrar recarga, geração solar e armazenamento pode aumentar o autoconsumo, reduzir demanda em horários críticos e ampliar a previsibilidade energética. Porém, esse ganho exige uma análise própria de curva de carga, simultaneidade, potência de recarga, tarifas e estratégia operacional.

08 — ANÁLISE

O que este caso ensina à indústria

O estudo demonstra um fluxo replicável: diagnosticar a frota, medir consumo e manutenção, validar a tecnologia na operação, dimensionar infraestrutura, comparar o custo total e quantificar emissões com fronteiras claras.

Também explicita limites importantes. As horas de operação não foram individualizadas por equipamento e a sinergia fotovoltaica não entrou no fluxo financeiro. Em um projeto executivo, telemetria, medições de demanda e um piloto operacional podem reduzir essas incertezas antes da expansão da frota.

A eletrificação industrial ganha força quando deixa de ser tratada como aquisição isolada e passa a integrar mobilidade, energia e estratégia de ativos.

CONCLUSÃO

Eletrificar exige engenharia — e os números mostram por quê

Nas condições analisadas, a transição para empilhadeiras elétricas apresentou compatibilidade técnica, payback de 3,4 anos e economia de R$ 2,38 milhões em valor presente ao longo de dez anos. O resultado não é uma promessa universal: é a consequência de dados reais, premissas transparentes e uma comparação que considera todo o ciclo econômico. Esse é o padrão de decisão que permite transformar sustentabilidade em produtividade e valor empresarial.

PERGUNTAS FREQUENTES

O que avaliar antes de eletrificar uma frota

Basta comparar o preço de compra das empilhadeiras?+

Não. A análise deve considerar energia ou combustível, manutenção, infraestrutura, disponibilidade, vida útil, financiamento e valor residual. O custo total de propriedade é mais útil que o preço isolado.

Uma empilhadeira elétrica elimina todas as emissões de gases de efeito estufa?+

Ela elimina a combustão e as emissões diretas no ponto de uso. A eletricidade e o ciclo de vida dos equipamentos ainda possuem emissões, que devem ser avaliadas conforme as fronteiras do inventário corporativo.

Energia solar pode melhorar o retorno do projeto?+

Pode, especialmente quando a recarga coincide com a geração ou quando armazenamento e gestão de demanda são integrados. O ganho precisa ser calculado a partir da curva de carga, da tarifa e da infraestrutura de cada operação.

Fontes e referências

  1. SOUZA, Arthur Antonio de. Estudo de viabilidade técnica e financeira para eletrificação de empilhadeiras em uma fábrica de lubrificantes. Trabalho de Conclusão de Curso, UFRJ, 2026.
  2. EPE — Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2025 ↗